
“Confesso que, por muito tempo, resolvi tudo sozinha. Tinha roupa para lavar, comida para fazer, contas para pagar e sempre alguma coisa esperando por mim. Eu me preocupava com todo mundo e me esquecia de cuidar de mim. Até que, de uns tempos para cá, um pensamento começou a aparecer com frequência, e que talvez você já tenha sentido isso. “Hoje eu queria um dia só para mim!”
E não era porque não amava minha família e nem porque deixava de cumprir minhas responsabilidades, mas aquelas obrigações do dia a dia: limpar a casa, cuidar dos filhos, cuidar do marido, lavar roupa… São tantos afazeres que, muitas vezes, não sobra tempo para nós mesmas. Sabe aquele tempinho só nosso? E então percebi que tudo vai além do cansaço da rotina, e por priorizar tudo e todos eu esqueci que cuidar da minha saúde mental e do meu bem-estar também é importante. A gente vai seguindo, fazendo sempre tudo e acaba esquecendo que também precisamos de descanso, cuidado e atenção.

1. Saiba a diferença entre ter responsabilidade e se sobrecarregar!
As responsabilidades fazem parte da vida: cuidar da nossa família, trabalhar e resolver os problemas do nosso dia a dia são coisas que precisamos fazer. E o problema começa justamente quando sentimos que precisamos dar conta de tudo perfeitamente, sem deixar nada para depois e sem ter a quem pedir ajuda.
Então, qual o limite entre ter responsabilidade e se sobrecarregar?
Ter responsabilidade é fazer a sua parte, ou seja, cumprir suas obrigações sem anular quem você é! Já se sobrecarregar é sentir que você precisa carregar o mundo inteiro nas costas, sozinha, como se tudo dependesse exclusivamente de você.
Muitas vezes isso acontece de forma tão sutil que só percebemos quando já é tarde, porque ficamos irritadas, cansadas e sem ânimo para nada, principalmente para cuidar de nós mesmas.
Quando percebemos, estamos o tempo todo disponíveis para todo mundo, resolvendo problemas dos outros e deixando nossas próprias necessidades em último plano. Mas ser responsável não significa estar à disposição o tempo todo. Nós também temos o direito de dizer não, descansar, tirar um tempo e pedir ajuda.
Nem tudo precisa ser resolvido na mesma hora, porque cada pessoa tem o seu próprio ritmo, e ele precisa ser respeitado. E não se esqueça: cuidar de você não é egoísmo. É uma questão de sobrevivência emocional e o básico para o seu bem-estar.
2. Sinais de que você está assumindo mais do que deveria!
Você sente culpa quando tira um tempo só para você? Mesmo cansada, continua fazendo tudo porque acha que não pode parar? Tem dificuldade para dizer não aos outros, mesmo estando no seu limite? Ou sente que você precisa resolver tudo sozinha, sem dividir as tarefas?
Se você respondeu “sim” a uma ou mais dessas perguntas, é bem provável que esteja assumindo mais responsabilidades do que deveria. E, com isso, nem perceba o quanto sua mente e seu corpo estão dando sinais de cansaço.
Não se sinta culpada por precisar de descanso, nem assuma como suas todas as responsabilidades dos outros. Pare para pensar: a vida passa, a gente envelhece e passa muito tempo cuidando de outras pessoas. Mas, no meio de tudo isso, quem cuida de você?
Você também precisa ter seus momentos de respiro e fazer coisas para si mesma. Pode ser praticar uma atividade física, dedicar-se a um hobby, ou simplesmente sentar no sofá e não fazer absolutamente nada!
Carregar responsabilidades demais por muito tempo faz mal e afeta seu bem-estar contribuindo para noites mal dormidas e para o aumento do estresse. Por isso respeite seus limites e lembre-se: você também merece estar entre as suas prioridades.

3. De onde surgiu essa ideia de que mulher precisa dar conta de tudo?
Porque crescemos aprendendo que precisamos estar sempre à disposição quando nosso marido, nossos filhos, mesmo adultos, ou nossa família precisam de nós. Aprendemos a resolver, cuidar, organizar e atender às necessidades de todos, colocando as nossas sempre em segundo plano.
E aos poucos vamos construindo uma imagem distorcida de que somos uma “supermulher”, aquela que não reclama, que resolve tudo, que aguenta tudo em silêncio, que não pode demonstrar cansaço e que sempre encontra uma maneira de seguir em frente.
A verdade é que não fomos feitas para carregar esse peso o tempo todo. É contraditório, porque muitas vezes pensamos que somos fortes por conseguir carregar tudo e continuar suportando. Mas ultrapassar nossos limites não significa ser forte de verdade. Muitas vezes, é apenas o cansaço acumulado chegando ao limite.
E passamos a enxergar a fragilidade como algo negativo. Quando dizemos não, quando precisamos de ajuda ou quando não conseguimos mais fazer tudo, sentimos culpa, como se parar significasse fracasso, pedir ajuda fosse admitir fraqueza ou cuidar de nós mesmas fosse deixar alguém na mão.
É difícil perceber que não precisamos provar nossa força o tempo todo. Podemos ser fortes e, ainda assim, impor nossos limites. Podemos cuidar dos outros, mas também precisamos de cuidado. Podemos amar nossa família e, mesmo assim, não conseguir resolver todos os problemas dela.
Reconhecer tudo isso não diminui nosso valor. Talvez seja o começo de uma relação mais honesta e sincera conosco mesmas.
4. Existem dados oficiais, isso não é imaginação!
Não é só impressão sua. Segundo o IBGE, em 2022, as mulheres dedicam em média 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. E entre as pessoas que trabalhavam, as mulheres gastavam em média 6,8 horas a mais nessas tarefas do que os homens.
Esses dados mostram que como muitas mulheres precisam conciliar o trabalho remunerado com os cuidados com outras pessoas e a responsabilidade pela casa. É o que conhecemos como jornada dupla. Com isso fica mais fácil entender porque tantas mulheres se sentem cansadas e sobrecarregadas.
Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), 2022
Consulte os dados no site do IBGE.

5. O que podemos fazer na prática para mudar essa realidade
Depois de perceber que estamos sobrecarregados, o caminho não é tentar organizar tudo de uma só vez. Podemos começar olhando com sinceridade para os nossos dias e para a nossa rotina, fazendo uma pergunta diante de cada tarefa: “preciso mesmo fazer isso agora?” Ou então “Isso pode ser dividido, adiado, ou quem sabe, resolvido depois?” Nem todo pedido precisa ser atendido imediatamente.
Aprender a assumir menos compromissos não significa deixar de se importar com os outros, mas reconhecer os nossos próprios limites e entender que também precisamos respeitar aquilo que conseguimos ou não fazer.
Outra possível mudança é saber pedir ajuda. Às vezes, estamos tão acostumadas a fazer tudo sozinhas que esquecemos que muitas tarefas podem e devem ser divididas. Quando fazemos isso, a responsabilidade deixa de ser um peso individual e passa a ser compartilhada, deixando tudo mais leve.
E lembre-se também: não precisamos fazer tudo perfeitamente. Há coisas que podem ser feitas depois, outras de maneira mais simples e algumas talvez nem precisem ser feitas.
Sei que mudanças não são fáceis e que cada mulher tem o seu próprio ritmo para dar o primeiro passo. E esse talvez seja o mais difícil. Mas ele pode ser o começo de uma nova fase, com uma rotina mais leve, na qual cuidar dos outros não signifique anular ou esquecer de cuidar de si mesma.
E você? Pare um instante, reflita e pergunte a si mesma: o que eu poderia deixar para depois hoje? Conte nos comentários: qual pequena mudança você faria na sua rotina? Às vezes, ouvir isso de outra mulher é o empurrãozinho que faltava para dar o primeiro passo.